terça-feira, 19 de junho de 2018

A bela estranheza do ser.

“Conheça todas as teorias, 
domine todas as técnicas, 
mas, ao tocar uma alma humana, 
seja apenas outra alma humana.” 
×Carl Jung.



É difícil falarmos de pessoas, cada ser humano é um mundo particular. E nem mesmo o próprio ser se entende por completo. Cada qual com seu infinito, sua história de vida, seu passado construído pelo caminho da vida. Às vezes, a construção de nossas vidas não nos permite conhecer a construção da vida alheia. Temos a necessidade de tentar encaixar os outros no nosso mundo, por isso há tantos rótulos.

Queremos dar um rótulo porque queremos entender, queremos encaixar as pessoas no nosso mundo. Não temos a sensibilidade de deixar a pessoa ser a pessoa. Rotulamos porque não entendemos. Rotulamos para entender. Entender porque o outro é tão diferente do nosso mundo e da nossa criação. 

O que deveríamos entender de fato é que a nossa vida nada tem a ver com a vida dos outros. O que eu penso ou deixo de pensar não pode influenciar a maneira do outro de viver porque a vida dele é dele. Constatação tão óbvia e tão difícil de ser colocada em prática.

Tiremos um exemplo banal, um exemplo de escolha cotidiana. Eu não posso querer impor que meu filho não seja colorado porque eu sou gremista. Por mais que eu brinque com essas coisas, eu sei que ele pode (e, mais importante, deve) fazer as escolhas dele de acordo com o que agrada mais a ele. É ele quem convive o dia inteiro com ele. Então que seja da maneira mais aprazível possível. Acredito sim que tenho que direcionar o meu filho ao caminho do bem, no sentido de ele não fazer mal a ele mesmo e aos outros, alerta-lo sobre amizades ruins, uso de drogas, etc. Porém, fora isso, passou do meu alcance, a vida dele é dele.

Como dito anteriormente, na teoria, é uma questão óbvia e simples, na prática, só deixando o ego de lado. O ego nos enaltece, nos faz acreditar que devemos encaixar nossos entendimentos, nossas crenças, e, às vezes, até impor nossos conceitos à vida alheia. Quando, na verdade, temos que entender que a vida dos outros não nos pertence. Nos é estranha por questão de criação, mas a estranheza deve acabar aí. Porque também somos estranhos no mundo das outras pessoas. E, do mesmo jeito que queremos ser entendidos, também temos que entender os outros e o mundo particular deles.

Todos somos rotulados e todos julgamos o tempo todo. É da vida, é a própria vida. Porém, quando tomamos consciência disso, podemos mudar. Para não sermos estranhos uns aos outros, aceitemos a estranheza alheia como um universo diferente do nosso, porém nunca um universo errado. Aceitemos que a vida do outro é apenas dele. Afinal de contas, somos todos almas humanas tentando o melhor de nós mesmos.